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Circuncisão contra a aids?

Um novo estudo francês sugere que a prática reduz em 60% a transmissão do HIV da mulher para o homem
Dois terços dos infectados pelo vírus da aids em todo o mundo vivem na África. Estima-se em 26 milhões o número de soropositivos no continente. É por isso que encontrar formas simples de barrar o avanço da doença na região é tão urgente. De todos os projetos em curso na África subsaariana, um dos mais promissores - e controversos - é o que propõe a circuncisão masculina.
A remoção do prepúcio - pele do pênis que cobre a glande - poderia evitar 6 milhões de novas infecções e 3 milhões de mortes por aids nos próximos 20 anos, segundo estudo recente. A previsão é do médico Bertran Auvert, do Instituto Nacional da Saúde e da Pesquisa Médica (Inserm), de Paris. A equipe dele mostrou, pela primeira vez, que a circuncisão poderia reduzir em 60% a transmissão do vírus HIV da mulher para o homem. A estimativa é baseada em uma pesquisa com jovens de 18 a 24 anos na região de Orange Farm, perto de Johannesburgo, na África do Sul. Os voluntários foram divididos em dois grupos: circuncidados e não-circuncidados. Passados 21 meses, constatou-se um índice de infecção três vezes mais elevado entre os não-circuncidados.

Qual a explicação científica?

A parte do pênis em que o HIV penetra mais facilmente é a face interna do prepúcio. Trata-se de uma mucosa muito fina, que o vírus atravessa facilmente para atingir as células do sistema imune. "Sem o prepúcio, eliminamos consideravelmente a probabilidade de transmissão do HIV", disse a ÉPOCA Bertran Auvert, também professor de Saúde Pública da Universidade de Versalhes. Após a relação sexual, a parte situada entre a glande e o prepúcio permanece úmida. Isso não ocorre no pênis circuncidado. E o HIV só sobrevive numa zona úmida.
Dois novos estudos práticos estão em curso no Quênia e em Uganda para aprimorar os conhecimentos sobre o assunto. A hipótese da pesquisa realizada em Uganda é que a circuncisão exerça um efeito protetor na transmissão do vírus do homem para a mulher. A Organização Mundial da Saúde (OMS) e o Programa Conjunto das Nações Unidas sobre o HIV/Aids (Unaids, em inglês) aguardam os resultados dos dois estudos para o final de 2007.
A OMS também prepara um manual de técnicas cirúrgicas de circuncisão. Para Auvert, a prioridade deve ser a circuncisão dos adultos na África e o desenvolvimento de uma técnica cirúrgica simples. Algo que não exija injeção ou corte da pele e que seja facilmente executado por enfermeiros.
As dificuldades para a adoção da medida são enormes. "Os países do continente sul-africano dizimados pela epidemia da aids, como Zimbábue, Lesoto, Suazilândia, Zâmbia ou Namíbia, possuem estruturas de saúde bastante limitadas", diz ele. Portanto, pode ser irrealista a idéia de circuncidar milhões de adultos com técnicas cirúrgicas que exigem anestesia local, corte e sutura.
É verdade que a circuncisão não substitui o uso da camisinha como medida de prevenção universal. "Ela só faz sentido em países em que a transmissão é majoritariamente heterossexual, a epidemia é importante e a maioria dos homens não é circuncidada", diz Auvert. A África se enquadra em todos os requisitos. "Não consigo entender o pouco engajamento dos governos nessa luta", afirma o médico.
(publicado na Revista Época, 09/12/2006)